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Nem se compara
a Redação
Morar em prédio é um prato cheio aos neuróticos e também aos observadores críticos (como eu). Existe um ecossistema próprio e curioso. Se quisermos, todos os dias há algo de pitoresco a se reparar. Tive um vizinho que passou meses treinando alavancada na guitarra. Era estranho, porque ele não tocava música nem riff algum. Simplesmente ligava o instrumento, dava um esbarrão nas cordas para checar a distorção e começava a série monótona de alavancadas. Depois, se desfez do equipamento (para alívio geral). Tem também o povo do smartphone. Aquele que usa o aparelho para se alienar da vida ao seu redor. Basta você entrar no elevador e já ficam desesperados, buscando o celular para fuçar qualquer coisa – só para evitar a possibilidade de um eventual contato. Mas, uma vez, um cara desses me viu subindo com uma pilha de Bass Player e comentou, ironizando: “Caramba, você curte papel, hein?”. “Desde criancinha”, respondi, simplificando o quanto realmente curto papel. Apesar da colocação tipicamente de um ser digital, ele me fez avaliar algo por mim bastante prezado. Eu amo papel! Pensei em dizê-lo: “É amor mesmo, e cultivo esse sentimento diariamente. Tenho sempre um bloco e uma caneta à mão. As ideias, a propósito, não marcam hora para vir, mas têm uma paciência curtíssima”. Se o sujeito retrucasse, eu completaria: “Essa paixão vai além. É carnal, tátil, irretocável. Resiste até aos encantos com os quais a internet e as tecnologias nos tentam. É mania minha! Nada substitui o ritual de sentir nos dedos as fibras das folhas e receber aquele sopro a cada virada de página. O toque é outro, a interação tem mais vida, mais detalhe sensorial. Ou seja, você realmente absorve a informação”. Provavelmente o cara iria defender a sua causa, mas não lhe daria tempo hábil. “Sentir o papel nas mãos, quando nos debruçamos sobre uma revista ou um livro pelo qual nos interessamos, é uma experiência afetiva”, emendaria. “Sempre comparo a um instrumento musical. Não há jogo de videogame, aplicativo e recurso digital que supere o tesão poderoso de se empunhá-lo. Seu peso, a textura e a forma do corpo, o deslizar pelo braço, a vibração das cordas, o cheiro que tem, a cor, o som... É como fazer amor, só que na forma de música.” Entendo, tenho e uso tecnologias modernas. Porém, se o papo são os atos de prazer, não abro mão de folhear papel, por exemplo. Nem se compara! Imagino ser algo que o carinha que ironizou a minha querida pilha de Bass Player tenha dificuldade de entender. Para quem aproveita boa parte da vida real deslizando o dedo numa tela de smartphone, a ironia é o que sobra como interação falada. Mas, agora, viremos a página, por favor! Henrique Inglez de Souza – editor@bassplayerbrasil.com.br
Matéria completa na Revista Bass Player 40/Janeiro de 2015.
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