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Tocar com honestidade
Henrique Inglez de Souza
 Não é difícil lermos ou ouvirmos em entrevistas a expressão “tocar com honestidade”. Seu uso excessivo deu-lhe uma pinta de clichê, de pieguice para preencher a falta do que falar. Bom, há casos em que isso acontece mesmo, mas, no geral, o significado mantém-se importante. É uma mensagem valiosa, pois representa algo mais profundo do que a forma como abordamos um instrumento. Eu já disse aqui que a sua música é o seu reflexo fiel, e ao que me refiro agora tem conexão direta com essa mensagem. Porque o caráter da pessoa, bom ou ruim, vem impresso em cada nota executada, e todos percebem. Há quem menospreze a massa, a inteligência afiada do público, e aí está o passo em falso. Note: quando digo “público” não incluo os puxa-sacos de Facebook. A pessoa que é mau-caráter não toca com honestidade, embora tal perfil não elimine o fato de ela ter talento e uma boa e técnica abordagem. A diferença é que jamais terá aquele brilho especial, aquela magia que realmente encanta. Será sempre alguém medíocre, incoerente com a vida, de ideias vazias, de discurso pobre, pífio e monossilábico em suas próprias asneiras. Que dá uma machadada certeira na própria dignidade. Que toma atitudes duvidosas, ignorantes e nada éticas. É o tipo de pessoa que hoje divide a refeição contigo e que amanhã mete uma volumosa cusparada no prato só porque, eventualmente, os caminhos tenham seguido rumos diferentes. Enfim, trata-se de alguém de quem quero distância sempre, já que a confiança é zero. Preste atenção em seus conhecidos que tenham estereótipo semelhante. Verá que eu não disse nada fora de contexto. Vai constatar que a palavra do sujeito tem tanta consistência quanto um biscoito de polvilho velho e rejeitado no final da embalagem. As lições da vida servem para você incorporar, aprender e se aprimorar, e não para ficar choramingando recalque, que nem um bebê mimado. O público não quer saber disso. Pega mal, ainda mais se a sua idade acumula algumas décadas de estrada. A pessoa que tem caráter, por sua vez, não é burra. Sabe tratar com hombridade a inevitável oscilação entre alegrias e decepções. Faz isso porque carrega um amor bem nutrido e bem resolvido dentro do coração. Tem a pureza cristalina intacta na alma e está imunizada contra o rancor, assim como acontece com a sabedoria que rege o público que sai de casa para assisti-la ou que compra seus discos. Essa identificação mútua é o que origina uma emoção única, mágica e ímpar capaz de evidenciar a aura vistosa protetora do músico que toca com honestidade. Mesmo que alguém não concorde comigo, a postura pessoal (a de você como indivíduo do mundo) é, sim, um elemento importante em sua musicalidade. Pense nisso e esforce-se constantemente para ser alguém do bem, melhor, ser nobre diante do milagre precioso de poder desfrutar a vida.
Matéria completa na Revista Bass Player 34/Julho de 2014.
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