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Mentalidade hermética
Henrique Inglez de Souza
Músico criticar preconceito com preconceito é inadmissível, ponto contra! Embora não seja mais um moleque e saiba muito bem onde meus pés pisam, ainda me pego abismado com esse tipo de coisa. Se o cara é um imberbe, um zero à esquerda, desconsidero, mas um profissional, um sideman com anos de estrada, bancar um papelão desse não dá para tolerar. Precisa-se rever conceitos! A minha indignação soa boba para alguns, porque vemos tanto desse tipo de postura na internet que acabamos sendo levados pela anestesia da banalização. Contudo, uma hora ou outra, a ojeriza me bate com violência. E esse impacto acontece com grande intensidade nas ocasiões em que vivencio diretamente esse amargo sintoma de mediocridade artística. No mês passado, troquei umas ideias com um cara legal, gente fina e ótimo instrumentista. Só que, de um promissor diálogo de contrastes, a conversa ganhou uma forma surpreendente, para mim. Tudo começou quando li um comentário seu criticando quem fala mal de um determinado estilo popular no cenário brasileiro, mas gosta de bandas como Aerosmith. Sua comparação usava a breguice das letras de ambos os lados como elemento aniquilador de qualquer avaliação ou preferência. Reduzia a “vantagem” de um sobre o outro. Tentando entender melhor seu ponto de vista, quis argumentar que há, sim, diferenças criativas abismais entre representantes de tais gêneros (de todos, aliás), ainda que haja letras bregas. Não deu. Me intrigou um cara com conhecimento e cultura musicais ser tão radical e generalista. Aí vieram colocações apelativas como a do velho clichê do “conseguir tocar 500 mil notas por segundo, mas não ser capaz de tocar Parabéns a Você”. Sobrou até para as escalas pentatônicas! Também embalou por aquele papinho-furado do patriotismo furreca do “prefiro o que é brasileiro”, como se tudo produzido por aqui fosse bom. E não é! Sou muito mais o Aerosmith a coisas pavorosas como MC G15. Por mais piegas que possa ser, a banda norte-americana tem mais musicalidade, mais melodia, mais apreço no que faz, se comparada a esse tipo de “música” made in Brazil. A questão não deve estar na origem, mas na qualidade do que é feito. Depois, a conversa se transformou num painel de besteirada, do lado do cara, e de perda de tempo, do meu. Vi que, na verdade, ele estava simplesmente se contradizendo do início ao fim. No fundo, criticava algo em que não cabe julgamento: o gosto de cada um. E fazia isso justificando com preconceito. Algo desprezível! Qual é o problema gostar do estilo defendido por ele em vez de Aerosmith? E qual é o problema de se preferir Aerosmith a outros estilos, como o defendido por esse sujeito? A resposta é a mesma: nenhum! Mas, para ele, só vale um dos lados (o dele). Foi surpreendente e assustador descobrir que alguém que eu costumava prezar tanto tenha uma mentalidade hermeticamente rebocada. E pensar que é essa a visão que vai impressa em cada trabalho seu, em cada performance que faz, porque é assim que acontece – inevitavelmente. Seja lá a atividade ou o projeto em que nos envolvemos, as nossas características, os nossos valores e a nossa experiência de vida vão juntos. Atenção, pessoal! Vamos refletir melhor os atos e as posturas! Músico de pensamento tacanho só consegue produzir música tacanha e/ou tocar de maneira tacanha. Abraços!
Matéria completa na Revista Bass Player 65/Março de 2017.
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