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Diletantismo
Henrique Inglez de Souza
Numa tarde, há algumas semanas, encontrei o exemplar de um livro meu em um sebo. Aquilo me encheu de alegria. Por mais que tivesse me esforçado para não deixar transparecer o êxtase momentâneo, o vendedor notou, na hora, a mudança de meu semblante. Ele talvez não tenha entendido, mas ficou clara a satisfação desenhada em meu rosto. Tive uma sensação parecida como a de, sei lá, refrescância após um dia inteiro caminhando no deserto, ou algo assim. Curioso e nada discreto, o funcionário me perguntou o porquê da alegria. Depois de explicá-lo, me carimbou o questionamento (também sem o menor semancol): “Mas você gostou de ver seu livro em um sebo? Quer dizer que quem o comprou ou ganhou não gostou e o descartou – o que, para mim, não é nada legal”. Apesar de dar nada à opinião daquele cara, expliquei rapidamente que a ocasião representava um sinal de vitória, de que a obra não estava ali “descartada”. Estava, sim, em movimento, circulando. Num país como o nosso, que trata mal a cultura que tem e que produz, isso é festejável. É claro que o atendente se manteve lacrado na mesma visão, e não o culpo. O Brasil é um país que obriga o escritor a escrever por diletantismo. Força aqueles que se dedicam ao ofício a se confrontarem consigo mesmos, a fim de criar estímulos próprios para encarar a realidade. Há quem se dá bem, que faz da vocação algo de fato rentável o bastante para amparar uma vida e tudo o que de essencial ela exige. Mas estes, sabemos, são minoria. A grande maioria tem a bravura heroica e criativa de dar seu jeito para continuar no que gosta, com aquilo que sabe. Aliás, “fazer o que gosta”, nesse caso, soa como a mão do que afaga a cabeça, no gesto piedoso de quem não acredita em você. A expressão resume o sentimento do outro para com o que se devota ao ato de escrever. É a maneira irritantemente clichê de se amainar a espaçosa falta de estrutura sólida de sobrevivência no mercado (como se essa “força moral” ajudasse). Por essa opinião que tenho, as pequenas vitórias – ainda que soem qualquer coisa, menos “vitória”, aos indiferentes – são conquistas excepcionais. Tendo consciência da longa distância entre o querer e o ter, você passa a valorizar cada passo da caminhada como sendo a chegada concretizada. Esqueça o papo de que encarar assim é se subestimar, pois não é! Ao contrário, é reconhecer onde se pisa para seguir melhor rumo ao destino pretendido. Como o futuro se compreende apenas uma fantasia, um bem virtual, as garantias de resultado são relativizadas. Portanto, o presente é sempre o maior ápice do indivíduo, e que pode ser superado. Saí do sebo sem levar o exemplar do meu livro. A ideia era e é outra, de qualquer forma. Quero que a minha obra circule o máximo que der por mãos e lugares dos variados cantos. Esse, afinal, é o objetivo da coisa: divulgar a nossa criação. Após o fim do diálogo, o cara que me atendeu buscou prontamente os fones de ouvido pendurados no pescoço. Virou-se e retomou o ócio costumeiro do lado de trás do balcão, fuçando redes sociais pelo celular. Se eu continuava ali, isso já não importava mais para ambos. Estava curtindo a minha alegria, e para mim era o que bastava. Ganhei até mais do que o dia. Ganhei uma dose saborosa de inspiração para escrever mais. Me senti prestigiado por encontrar a mim mesmo em um sebo. Aos que servirem, ofereço aqui a carapuça. Abraço!
Matéria completa na Revista Bass Player 64/Fevereiro de 2017.
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