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Comova-se!
Henrique Inglez de Souza
A falta é um buraco que não se preenche. E não me refiro à falta de algum produto, de um objeto ou um funcionário. Não tem nada a ver com o desequilíbrio errado no preparo de uma receita. Também se engana quem acha que citei a quantidade de combustível ou os minutos restantes para que se complete determinado horário. Quando penso nesse tipo de falta, a irreparável, me vem à cabeça a imagem de uma erosão constante – e aí está uma boa imagem! Pois é como se um grande cânion fosse se formando dentro do peito cada vez que considero quem ou o que perdi de valioso. Por um instante, minhas saudáveis entranhas vão gradualmente se transformando em um escombro, um resto de qualquer coisa, um amontoado de entulho. Nesse mergulho profundo descubro a assombrosa pequenez que me preenche. É quando sou capaz de desarmar as defesas que me protegem o orgulho e consigo ver o tamanho da encrenca à espera. Na verdade, eu e qualquer um de nós. Trata-se de um processo natural, independentemente se o sujeito é do tipo valentão ou tranquilo. Há fatias que desarrumam demais o bolo quando arrancadas bruscamente. O que a falta nos danifica permanece como uma cicatriz que dificilmente desaparece. Vira um ativador de lembranças. Alguns levam para o lado da raiva, do recalque maléfico. Outros passam a vida chorando, num luto inútil e prejudicial. E você, o que faz com as erosões que te acometem? Temos de nos esforçar para ser criativos e fazer disso um ponto de superação (o vulgarmente conhecido como “dar a volta por cima”). Acredito que devemos sintetizar dor e saudade (ou melancolia) em uma referência de respeito, agradável. Transformar essa lacuna no passe para um ciclo inédito. Tanto faz com o que ou no que a pessoa trabalhe, insistir para esse momento de superação acontecer é, também, perseguir inspiração nova. Descobrimos bolsões de energia revigorada a cada esbarrão corrigido. Isso ocorre porque o ser humano é passível de se comover – qualidade variável e, portanto, única a cada um de nós. A gente vivencia, comove-se e desdobra as experiências de alguma maneira (boa ou ruim). Depende de um sentido escondido por trás da própria palavra “comover”, é o como+ver. Ou seja, relaciona-se à forma como vemos o mundo e o jeito que isso determina as reações internas de nosso corpo, de nosso ser. Nós, que lidamos com uma expressão de arte, vemos na prática do comover-se algo ainda mais fundamental. Aja como uma pedra blasé, e sua música será uma porcaria vazia – por mais bem executada e gravada que esteja. Exercite sua sensibilidade, e notará um vigor mais intenso no que faz, e provavelmente verá que outras pessoas se interessam pelo que produz. Afinidade, ora, é a palavra que descreve resumidamente a comunicação direta que existe entre os corações ainda pulsantes. Faça da falta que dói a janela para um lado novo da vida que segue até o dia certo e a hora marcada de seu fim. Comova-se mais, e que 2017 traga mais alegrias que agonias a todos nós!
Matéria completa na Revista Bass Player 63/Dezembro de 2016.
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