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Teoria da ebulição
Henrique Inglez de Souza
Enquanto vivemos uma feira aberta de ódio, em que se trocam ofensas, intolerâncias e preconceitos com tesão, uma minoria mantém-se sã na trilha do amadurecimento humano. Segue quase inabalada pela via construtiva do respeito e do foco total no lado positivo. Hoje o avesso tornou-se a parte externa e esta, o avesso. Disputas ideológicas atrasando o próximo passo que nós, seres ditos racionais, poderíamos dar. Isso ocorre ao mesmo tempo que aquela minoria tenta filtrar soluções e problemas sem cuspir ira para lidar com os seus assuntos.  Sou desse grupo menor de pessoas, e os meus esforços estão voltados para o cotidiano que compõe meu universo. Neste está a minha paixão pela música e pelo jornalismo, a qual declaro todos os meses nas páginas da BP. Como qualquer relação amorosa (pois o que nutro é amor), há altos e baixos, há um abrir mão daqui e de lá a fim de que se estabeleça um panorama interessante, artisticamente falando. Acontece que essa feira aberta de ódio é, também, fruto de uma futilidade de espírito que já vinha há anos preenchendo cantos e frestas mundo afora. É fruto de uma escassez genérica que ganhou voz e corpo com as redes sociais e as facilidades tecnológicas. Vem do mesmo saco que estimula o aparecimento de caras e bocas, e mensagens de um vazio angustiante. Na música – meu universo –, canso-me de ver o monte de besteirada, de bobocas agindo feito bobocas, de excesso de nostalgia, de falta de inspiração e criatividade. Vejo prateleiras repletas de porcarias gradualmente distanciando a qualidade do público. E isso não vale para um estilo. Todos agonizam dessa coisa viral de se cultivar a bizarrice, o prato feito requentado que o mercado adora. Se você ligar a TV e assistir aos programas jovens, notará que a grande maioria reaproveita canções do rock oitentista (regravando ou reutilizando). E mesmo outras atrações vêm com a prática do remake (incluindo diversos filmes de Hollywood), que, para mim, se tornou pavorosa – é nada mais que o atestado da pura falta de boas ideias abraçada pelo medo da perda de receita. O pop resumiu-se a apenas corpinhos sarados, capas de revistas de fofoca e polêmicas extramusicais. Ficou aquela coisa: conhecemos o nome da/o “artista”, mas não somos capazes de citar uma música (muito menos uma que preste, porque não há). Se pensarmos no pop dos anos 1980, acontecia o contrário: as canções chamavam a atenção e associávamos aos artistas (sem contar as que conhecemos, mas não sabemos de quem é). Ou seja, havia um cuidado para com a obra, com o lado realmente artístico da coisa. No rock também há vícios de babaquice. Há o pessoal que se deixa estragar só para entrar na grande mídia (que os consome feito lagosta assada e depois joga fora no latão do esquecimento). Há os roqueiros de Facebook, que vivem postando selfies ou fotos posadas de suas bandas, estufando o peito como se fossem tudo aquilo. Há ainda um tipo que me irrita, que é o desse pessoal que não mede esforços para mostrar que bebe pra caralho, que vive bêbado e de ressaca, e que tem horários completamente diferentes dos cidadãos “normais”. Não sou moralista (longe de mim), mas o que me incomoda é a postura. Investe-se muito tempo e espaço para se vangloriar com pose e um teco de nada para produzir e divulgar composições. É como se para ser roqueiro tivesse que beber mais que ônibus de turismo desregulado e estar sempre tomando chá de boldo no dia seguinte. Só que o importante é outro aspecto: a música! Até porque, quando ouvimos o som que essa galera passa-mal faz, nos decepcionamos. Torço os dedos e faço a minha parte para que a humanidade consiga se desvencilhar dessa lama e dê o passo seguinte. De nada adianta celulares high-tech e milhões de amigos na rede social se o dia é erguido com ódio ideológico e conteúdos de bolha de sabão. Enquanto a grande maioria reclamar da merda comendo bosta, nada sairá para além da fossa! Agora, quando a criatividade construtiva ferve, aí, meus caros, o resultado positivo entra em ebulição. Abraço!
Matéria completa na Revista Bass Player 61/Outubro de 2016.
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