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As pitangas
Henrique Inglez de Souza
 "É o fim dos tempos!” – foi o que li na rede social de um conhecido quando a notícia da morte do David Bowie ganhou o mundo. Apesar de o sujeito ser um fã do chamado camaleão do rock, a minha leitura do que escreveu alcança o Lemmy Kilmister e os outros artistas não necessariamente da música que se foram recentemente. A virada para este ano tem se desenrolado particularmente implacável, em termos de figuras partindo desta para uma melhor, hein? Não sou neurótico nem um desses fanáticos que ficam em praças movimentadas pregando o caos no planeta em nome de uma determinada religião. E não sou pessimista, especialmente quando se trata da vida. Mas é impossível negar que a foice da morte vem trabalhando sem dó! Vale ressaltar aqui: Glenn Frey (guitarrista e fundador do Eagles), Ettore Scola (pilar do cinema italiano) e o baixista Jimmy Bain (Rainbow, Dio) também engordaram a triste lista de perdas. Todavia, por trás de tantas lacunas sendo formadas vejo uma amarga realidade. Vejo que estamos em meio a um período de transição de épocas, algo comum à caminhada humana. Só que a transição vem ocorrendo de maneira desproporcional, pois são raros os emergentes de peso. Quem sabe somos testemunhas do golpe de misericórdia do lado mais sujo que a grande mídia se prepara para deflagrar em si mesma. Pode ser que ainda tenhamos de agonizar um tanto além, até que toda essa porcariada transbordando dos canais de TV e das estações de rádio (e na internet) se esgote. Penso que aí, sim, será o início de uma jornada promissora, produtiva, transformadora e construtiva. As postagens daquele cara, o fã de Bowie na rede social, fizeram um trajeto comum hoje em dia: partiram de uma avalanche de homenagens para algo chato. Viraram uma feira livre de pieguice em demasia. De repente, ao astro britânico foram associados adjetivos que talvez nem o próprio imaginasse merecer. E não era apenas esse sujeito o único a praticar tal tolice. Através de merecidos tributos identifiquei a mão podre da mídia peçonhenta. Um abutrismo descarado e lucrativo garantindo mais um período de amarra ao passado, tal qual uma mineração irresponsável para com a natureza (no caso dos artistas, seu legado). Sou otimista. Costumo acreditar que as coisas darão certo, que as paisagens tenebrosas se transformarão em algo bom, harmonioso e inspirador. Jamais tive talento para o sofrimento, para choramingar as pitangas por seja lá o que for. Deixo isso aos extremamente infelizes, àqueles incapazes de dar a volta por cima e de encarar a vida do jeito que ela se veste para cada um. Tudo bem que as lágrimas são um colírio natural aos olhos, mas chorar demais embaça a vista e atrapalha a atenção que nos traria rostos diferentes, músicas novas e a era que está por vir. Fim dos tempos? De quais? Lamentar, só se for por termos deixado para trás os tempos em que se andava para a frente com a memória boa, a convicção tinindo e a vontade em ordem para desbravar o horizonte.
Henrique Inglez de Souza – editor@bassplayerbrasil.com.br
Matéria completa na Revista Bass Player 53/Fevereiro de 2016.
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