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Medo e preguiça (parte 2)
Henrique Inglez de Souza
 Nem toda preguiça é daquela que nos mantém na cama até mais tarde no fim de semana ou que nos atira no sofá após um dia cheio. Há algumas preguiças peçonhentas, as quais funcionam como eficientes instrumentos do medo para nos empacar. Se o sujeito não se liga nisso e reage, passa a cultivar uma postura desleixada consigo mesmo e sem credibilidade ao crivo dos outros. Torna-se um frustrado funcional. Ainda que o seu ideal de vida não inclua ser um megastar ou um músico profissional; ainda que queira somente se divertir, tocando com os amigos, tome cuidado para não permitir que a moleza artificial vire costume. Lembro que numa das minhas bandas na adolescência os ensaios perderam o embalo porque o guitarrista especializou-se em furos de última hora e respostas esfarrapadas. Enquanto tínhamos paciência, ouvíamos desculpas como chuva forte, o ônibus estava demorando, não tinha tirado direito uma das músicas, cansaço (ele não trabalhava nem era um aluno exemplar na escola), e por aí vai. Depois do quinto final de semana seguido, marcamos um papo decisivo com o cara, cujo apelido era Satã (seu mau presságio, talvez?). Acabou levando na boa a nossa vontade de continuar sem a sua presença. “Ah, então tá”, concordou. O estranho é que o grupo tinha surgido da iniciativa dele, porque dizia que nascera para viver na estrada, tocando, gravando discos e tal, e até mandava bem na 6-cordas! Mas... Uns dois anos adiante, reencontrei-o numa loja de instrumentos. Para a minha surpresa, estava deixando a tão amada guitarra em consignação. “Ah, meu! Parti pra outra! Esse lance de dar certo na música é só pra pouquíssimos mesmo. Chega de ralar à toa!”, justificou-me. Ainda tentei contra-argumentar, na esperança de reanimá-lo, mas foi em vão. “É muito trampo pra pouca garantia de sucesso”, insistiu. Bom, paciência, né? E não se trata de um caso isolado. Se repararmos, há um grande contingente que se entrega à tal preguiça peçonhenta (a qual costuma vir junto do romantizar demais um sonho). Sabe, querer e poder são condições irmãs, mas com um gênio difícil. Nem sempre se dão tão bem quanto gostaria a mãe delas, a expectativa. Às vezes, uma exige mais que a outra ou então ambas brigam feio, até que a vontade de uma prevaleça. Administrar isso dentro da nossa cabeça não é tarefa fácil, e tudo o que se pode fazer é manter o jogo de cintura inabalado. Certas posturas que adotamos são diminuídas ou menosprezadas pelo se-achismo bundão das redes sociais. Então, combata a sua moleza de espírito concentrando-se na persistência. No final, o dom que está em jogo é o seu!
Matéria completa na Revista Bass Player 37/Outubro de 2014.
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