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INGÊNIO
HENRIQUE INGLEZ DE SOUZA
Depois que começamos a trabalhar no meio musical, detectamos certos vícios de expressão. Adjetivações que saem no automático, no calor da emoção, e que não necessariamente se encaixam ao contexto aplicado. Qualquer um tem chance de reparar nesse tipo de coisa, concordo. Mas quem está diretamente envolvido na parte da cobertura (textual e factoide) do bolo – e, desejavelmente, conta com um olhar crítico – acaba filtrando mais. Tão banal quanto a qualidade artística hoje em dia, ser gênio virou acessório encontrado em qualquer camelô à beira da história. Tudo e todos têm a sua vez na falta de critério. É até mais fácil o desleixo de sintetizar assim... Na dúvida (ou ausência de conhecimento), coloque na mesma gaveta e pronto! Não quero desmerecer as glórias de cada um, mas acho essa rotulação meio ingênua e, principalmente, perigosa ao legado daqueles que realmente a merecem. Lemos e ouvimos aos montes: “Nossa, esse cara é gênio”, “aquela baixista é gênio”, “tinha que ser esse gênio”... Às vezes, o endereço do elogio está correto. Porém, no geral, é só porque se trata de alguém famoso e o admirador é um fã acalentado pela emoção à flor da pele. Se o mundo estivesse cheio de gênios como parece, seria chato e entediante. O novo, a surpresa, o diferente, o paralisante, enfim, o impacto viraria tão transformador e sensacional quanto descobrir que existe sorvete de lichia. Por isso, vale esclarecer uma coisa: todos têm seus momentos geniais, claro, mas poucos são os gênios. E isso é importante ser preservado. Enquanto os demais pensam no exibicionismo, no ficar famoso, no ser o maioral, os gênios apenas querem satisfazer ao dom, tal qual fariam com um dócil animal de estimação. É outro tipo de alimentação, sem glúten nem bajulação. Na música, isso se expressa de um jeito perceptível, como um perfume que sentimos. Pela emoção que nos é causada. Mas entendo que excesso de talento pode confundir um pouco. Os gênios não precisam de conexão, pois já vivem no universo das melodias, ritmos, notas e timbres. Eles não fazem, acontecem! Não querem ser nem buscam a genialidade. Simplesmente são – é só tocar. Têm uma aura diferente. Alguns até parecem esquisitos e excêntricos para nós, tamanho envolvimento com o mundo interno que têm. Mesmo em seu pior dia soam fora de série – ao contrário dos demais. Entendê-los, cultuá-los e preservá-los também é um compromisso que temos. São referências. Afinal, direção sem rumo é falta de objetividade, corpo sem alma e música sem a menor graça.
Matéria completa na Revista Bass Player 25/Outubro de 2013.
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