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A grama do vizinho
Henrique Inglez de Souza
Ao comentar com um conhecido que a capa desta edição seria o PJ, sua reação imediata foi: “O quê? Você está louco?”. É lógico que eu notei a repulsa em suas palavras, mas insisti para extrair mais. Perguntei-lhe um sonso “por quê?”. De peito inchado, o cara começou a tecer um monte de preconceitos junto com o seu direito de simplesmente não concordar. Esse conhecido meu é um exemplo do sem-número de pessoas que alimentam o péssimo e colonialista hábito de detestar o que é brasileiro. É algo que percebi há anos e que já devo ter dito aqui: brasileiro tem horror a músico brasileiro! Exceções, sem dúvida há: eu, você, a Bass Player e uma meia dúzia mais. Porém, perto do que se vê, somos uma ínfima parte da realidade.  Até mesmo diversos músicos daqui costumam restringir demais suas listas de afinidade em relação aos colegas conterrâneos. Falam mal de boca cheia, atiram pedras e tomates verbais. Denigrem, diminuem, ridicularizam, subestimam gente boa e competente pelo simples fato de terem nascido no país ou por terem uma exposição maior na mídia de massa. Os que agem assim (a maioria) são os mesmos paga-paus que abrem as pernas aos seus criticados quando estes morrem ou, principalmente, fazem sucesso e ganham respeito no exterior. Me dá a impressão de que ainda se depende da aprovação das colônias (culturais, mercadológicas, das modas). Tenho certeza de que se o Jota Quest fosse um grupo gringo haveria mais músicos brasileiros valorizando a parte instrumental deles – pelo menos, a repulsa seria menor. E faria todo o sentido estamparmos o PJ na capa. Provavelmente alguns até reclamariam da “demora” com que isso aconteceu (uma reclamação boa, diga-se de passagem). Acontece que as referências costumam ser as erradas, o que torna injusta a vida de qualquer um que se aplique em seu instrumento. Se o cara toca guitarra com virtuose, exigem dele o nível de Joe Satriani, Steve Vai etc. Se for baterista do rock, a lista de comparação é imensa: John Bonham, Neil Peart... Baixista na linha jazz rock fretless, e o sujeito está praticamente perdido, afinal, jamais se igualará a Jaco Pastorius. E assim vai! Esse tipo de coisa, aliado ao preconceito encharcando os olhos, alimenta a ojeriza que normalmente acontece de músico brasileiro para com músico brasileiro. Me cansei de ver gente que elogia bandas do exterior simplesmente por serem do exterior. Tecem palavras positivas, mas vazias. É como achar que todo vinho francês ou italiano é excepcional – mentira! Bebe-se porcaria desses países fazendo pose de entendido, enquanto se desprezam os excelentes rótulos brasileiros que existem. Não, não é só o mercado que está trôpego com a crise e em suas próprias cagadas. A mentalidade maldosa e detestável também mina os poucos espaços que mantêm a coisa viva, acontecendo. O pessoal que age rejeitando perversamente se parece com o Pokémon GO: arma a corcunda cultural para mirar somente em sua telinha limitada, e abre fogo na caçada verbal – só que não são criaturas virtuais que estão na mira, são os músicos conterrâneos. O PJ é mais uma figura nacional que me enche de orgulho por tê-lo estampando a BP. Para mim, particularmente, é uma honra imensa conseguir prestigiar baixistas brasileiros de qualidade, como temos feito nos últimos meses. Me traz um sentimento de missão sendo cumprida. Se você se remoeu de raiva só por ser ele “o cara do Jota Quest” ou coisas assim, aproveite para refletir melhor. Não precisa adorar Jota Quest, mas saiba ver as coisas com mais profundidade, mais informação, mais flexibilidade. Permita-se encontrar qualidades que estão mais além da superfície à qual seus olhos se acostumaram a buscar. Gostemos ou não, o grupo mineiro tem músicas boas, sim! Tem linhas interessantes, sim! Tem que ver qual é a origem da crítica: se é apenas porque não gosta do estilo dele ou se é por conta da implicância cruel e da comparação com as lendas do groove mundial. É preciso desarmar a alma. Isso ajudará a ampliar o vocabulário, pois o tornará alguém menos intransigente e rebocado para a vida. Um abraço!
Matéria completa na Revista Bass Player 59/Agosto de 2016.
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