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Marquises
Henrique Inglez de Souza
A chuva cai neste exato momento. Por aqui, o cinza azulado de um fim de tarde brusco perde espaço para o breu nublado da noite. Estou diante do computador, rabiscando ideias e anotando o que possa virar texto. Queria preparar uma crônica ou um conto avulso, dos que gosto e costumo escrever. Mas virou este editorial. Surgiu sob a trilha sonora de uma cidade movimentada encerrando o expediente do dito horário comercial. Cansado de não sair da mesma linha e amarrado aos pensamentos repetitivos, resolvo me levantar. Talvez sair do escritório, ver outras paredes, uma luminosidade diferente, me faça brotar possibilidades obscurecidas pelo bloqueio mental – sou muito mental, e esse tipo de coisa exerce determinante influência sobre mim. Aproveito o friozinho do outono capenga que faz e me animo a esquentar uma xícara de café com leite – café puro jamais me apeteceu, nem mesmo nas ressacas bravas. Preferiria uma cerveja ou até um cálice com vinho tinto dos bons. Porém, a maldita gota que me atacou as juntas de maneira crítica priva tal prazer. Vou, portanto, da receita secular na minha família, variando somente as dosagens. No meu caso, são dois dedos de café, um fundo com duas colheradas e meia de açúcar e o resto de leite (até quase transbordar). A quentura da bebida esfumaçando diante de meus olhos me entretém por instantes. Abstraio-me por breves passadas do ponteiro dos segundos. Contudo, o som da rua convida a minha curiosidade. Caminho vagarosamente até a janela da sala. Está fechada, já que os ventos jogam a água na direção do meu apartamento. Ainda que a vista através do vidro esteja embaçada, consigo enxergar o mundo de lá, especialmente a marquise estreita sobre a entrada do velho edifício na frente do meu. Há um pessoal reunido casualmente ali debaixo. Os postes de mercúrio já estão acesos, e o tom amarelado e melancólico predomina. Dou uns dois goles saborosos e percebo melhor quem são. Há um mendigo sossegado, acomodado em suas coisas e protegido da aguaceira gélida que cai. É o único sentado. Um pouco à sua frente, um sujeito indiferente esperando o momento oportuno de seguir adiante. Ele mexe na telinha brilhante do celular, entretido. Do lado oposto, mas não tão distante, um casal impaciente, agitado, conferindo segundo a segundo a intensidade da chuva. Ambos gesticulam com veemência, embora não pareçam estar discutindo entre si. Tento ouvir o que dizem – falam alto –, mas não consigo. Permaneço observando a marquise não sei por quanto tempo mais. Outras duas ou três pessoas vieram e se foram. Molharam-se porque deviam ter razões mais importantes do que ficar ali esperando ou do que se encharcar. A chuva cai sem parar. É daquelas constantes, pesadas, de gotas grandes e barulhentas, carregadas de trovoadas. O abrigo sobre as cabeças do pessoal é o mesmo, bem como o temporal que assola o início da noite na cidade. Todos estão unidos pela situação, mas levando a fatia de vida partilhada de maneiras específicas. Aquele trecho de teto representa alegria, bem-estar, acomodação, indiferença, frustração, oportunidade, aflição... É a zona de conforto como cada qual o desenha no peito. Meu café com leite já está no final, arremato o que falta. Vou até a cozinha para enxaguar a caneca e depois voltar ao escritório. Preciso retomar os afazeres, retomar o meu teto. Sozinho em casa, penso nas tantas e tantas formas que encarei a “marquise” sob a qual me encontro. Independentemente de como a vejo ou de como o meu humor a vê, foi e sempre será essa a marquise que conheço. É uma só – faça sol, faça chuva. Ainda que tão banal seja, nunca havia mentalizado esse detalhe. Com os desafios, os problemas, as alegrias e soluções, somos nós que lidamos. A dinâmica da marquise é aquela que geramos. Cabe a cada um buscar o sentido e o jeito como irá aproveitar o pedaço de teto sob o qual está. A chave está no ponto de vista em relação à coisa toda. Desliguei o computador após redigir este texto, e a chuva ainda caía forte lá fora.
Matéria completa na Revista Bass Player 57/Junho de 2016.
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