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A rainha dos ofícios
Henrique Inglez de Souza
A inspiração é uma dama esnobe. Às vezes, age até com arrogância. Odeia pressão e ansiosos, frustrando qualquer sinal de afobação, que não a sua. Confesso que me enquadro no pessoal que, ora ou outra, se pega louco para criar alguma coisa irretocável, perfeita ao nosso gosto. Normalmente tomo na cabeça, pois não é assim que funciona. Se você também se enxergou aqui, bem-vindo – e desista da insistência! Afinal, a inspiração vem somente quando ela quer. Persistir renderá tempo e unhas perdidos à toa (vai por mim!). Com o ritmo puxado de edição e feitura de entrevistas/matérias, raros são os instantes em que a cabeça se mantém 100% saudavelmente inventiva. Costuma haver um período do mês, próximo ao final do chamado deadline (prazo máximo jornalístico), em que brigo duro contra as minhas ideias. É preciso dosar prática e descanso até obter um resultado agradável. Cansa, desgasta, mas rola. Assim como tocar baixo ou qualquer instrumento musical, escrever exige dedicação. Meu finado avô paterno tinha uma filosofia que pratico intensa e diariamente. Dizia ele: “Escreva sempre! Nem que seja uma única linha e que saia meio de qualquer jeito, mas escreva!” Como a perfeição é aquele degrau seguinte que nunca chega (e nunca chegará), é a atitude que manda. Ela se torna a melhor ferramenta para atingirmos o estágio máximo do nosso alcance, o do muito perto da perfeição. Aos pobres mortais, contentem-se, fora permitido alcançar somente até ali. Todavia, agir requer mente sã, saudável, e nada abatida pela moedeira. Então, é essencial que cada um pegue leve, relaxe. O tempo é loteável, portanto divida o seu de modo a fazer simplesmente nada ou para se ocupar de qualquer assunto, menos o principal em andamento. Em meu caso, procuro desligar o computador ou largar longe de mim a caneta e o bloquinho de rascunhos. No seu, desligar o baixo, o amp e a música por um momento é fundamental para solidificar a sua musicalidade (sim, isso mesmo!). Evite ser um avestruz desenfreado de notas e escalas, engolindo bocados gulosos de informações sem um respiro. Repense essa dieta! A pausa é necessária para que aquilo que estudou tenha a chance de ser incorporado mais adequadamente. Vá viver, sair, receber vento no rosto, comer um dogão, viajar, tirar uma soneca, namorar, conversar com as pessoas frente a frente, ler um livro, dar boas risadas, chorar, vá visitar um museu... Enfim, viva sem bitola para que a mente consiga descansar e se fortificar. E mais: tente ao máximo se desviar de quem vampiriza a sua jornada. Se aceitar fazer algo, que seja bem-feito; se combinar, cumpra, seja profissional – ainda que não ganhe nada! Agarre-se ao que te massageia o ego e largue mão do que te desagrada. Consuma o que é belo! Faça isso, e ganhará pontos sabe com quem? Com ela mesma, a inspiração! Bem, deixe-me ser justo: a inspiração não é apenas esnobe e egoísta. Embora só venha nos visitar quando bem entende, ela também sabe ser muito generosa. Nos prega surpresas deliciosas, e de maneiras até inusitadas. Nos bajula quando menos esperamos, enchendo-nos de plenitude. Por exemplo, além do clichê do acordar para registrar uma ideia, já fui agraciado pela rainha dos ofícios andando na rua, no banho (ok, esse também é clichê), em ônibus lotado, na fila de um tabelião de notas, assistindo a um show, na correria do trabalho... E aí cabe à nossa competência de memorizar até encontrarmos um meio de anotar a ideia que tivemos. É tão gostoso quando nos sentimos inspirados e produzimos com tesão e vigor! Portanto, dê o espaço necessário para que isso lhe aconteça. Caso contrário, poderá se transformar num burocrata de sua própria arte, criando material bom, do ponto de vista técnico e processual, mas bocejante e sem graça, da perspectiva da poesia (manifestação genuína da inspiração). Resumindo: empenhe-se em permanecer de braços abertos à vida, e receberá, cedo ou tarde, aquele reconfortante abraço que só ela dá.
Matéria completa na Revista Bass Player 55/Abril de 2016.
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