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Fogo amigo
Henrique Inglez de Souza
 A vantagem da crítica é que ela não exige nada além de vontade. Há quem destile críticas bem elaboradas, com argumentos plausíveis, pertinentes e com uma elegância do tipo Belle Époque. Mas também há quem simplesmente cuspa em qualquer prato, seja no que comeu ou no que alguém esteja comendo. É de graça, afinal de contas! Aliás, é de graça e cômodo, porque não precisa sair do lugar para criticar. Nesses anos de caminhada jornalística, reparei num troço que chamo de falsa sugestão. É quando alguém solta os cachorros em nossa direção, criticando até não poder mais, e diz que está apenas dando um toque “sem compromisso”. Mentira! O ser está é desafogando os recalques para ver se lhe resta um espacinho de dignidade com que consiga abocanhar a verdade. Sabe, muitos confundem “vontade” com “verdade”, e aí pensam que detêm as respostas do universo sozinhos e que os demais são semicretinos desprovidos de conhecimento. Mas é apenas egoísmo, é apenas crítica (das cusparadas). Puxando para o vasto quintal da música, conseguimos perceber que essa prática – atirar pedras no ventilador – é constantemente aplicada. Com a internet, a coisa ficou fácil e rápida, e ganhou a chance de se avolumar de forma às vezes espantosa. Em meio a opiniões contrastantes mas construtivas e avaliações interessantes, trafegam toneladas de pitacos avacalhados de gente que só quer aloprar ou é preconceituosa mesmo. Não bastasse a saqueira que é filtrar essas baboseiras, me vem um sentimento de lamentação pelos que têm algo a expressar e são ofuscados. Reparo na reação causada pelas BPs, quando divulgamos no Facebook, e depois nos números de venda. Há algo de penoso no que constato embutido nisso: apesar de eu, a BP e você sermos exceções, o fato é que o público brasileiro em geral tem horror a músico brasileiro! Parece duro e talvez radical o que escrevi, mas é a realidade impregnada na repercussão que temos. Quando prestigiamos o trabalho de um brasuca, chovem críticas severas, apedrejamento e indiferença. Parece aversão. Dependendo do comentário, dá até a impressão de que estamos ofendendo o sujeito com o personagem de nossa capa. Pouquíssimas foram as ocasiões com conterrâneos nossos que viraram razoavelmente bem. Tal desgosto expressado pela maioria nos força a adotar um equilíbrio responsável entre os temas. Caso contrário, vamos para o buraco! De fora, as publicações dão margem a achar que é desprezo de nossa parte por baixistas brasileiros nas capas, só que não é. Somos, sim, obrigados a negligenciar desejos por conta da performance comercial – e, queira ou não, eis um aspecto a ser levado deveras em conta. É aquela história: reclamam que não valorizamos o músico brasileiro, mas, quando o fazemos, quem não valoriza muda de lado. Sempre que deparo com esse contexto, traço automaticamente um paralelo com os inúmeros músicos daqui que suam mais do que o suor que têm para conseguirem tocar e a baixa atenção que recebem de volta. O quadro é ainda pior quando se trata de gente disposta a investir em algo novo, autoral. Seja no palco, nos bastidores ou na imprensa, a sopa tem mais pedras que legumes! Viver de música, no Brasil, é mesmo um ato de braveza, heroísmo e fé. Só assim para enfrentar a cusparada intensa e constante que vem de dentro de casa. Por essa razão, sucesso genuíno, por aqui, tem sempre um gostinho extraespecial. É vitória das memoráveis.

editor@bassplayerbrasil.com.br
Matéria completa na Revista Bass Player 52/Janeiro de 2016.
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