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Muros
Henrique Inglez de Souza
A maldade, essa desgraça que o ser humano carrega desde que percebeu que podia aproveitar mais o cérebro do que qualquer espécie! Foi como um insight torto descobrir o amargo tentador da veia envenenada que temos. A partir dali perdeu-se o controle: uns se agarraram ao coração bom, estancando ao máximo o sangue cruel (e eu estou aqui) e outros se deixaram banhar pelo sangue estragado da perversão. Escuto diversas pessoas reclamarem e dizerem que o Brasil é uma bosta e que, se pudessem, mudariam para fora do país. Até entendo e respeito, mas também vejo algo de bastante ingênuo nisso. Parece que a solução está aí, em simplesmente arrumar a trouxinha e se mandar, virar as costas e “foda-se”! Mas a fuga revoltada não resolverá exatamente os desgostos da vida. Apenas mudará o endereço e as razões deles. Por mais justo, limpo ou tranquilo que seja um lugar, sem dúvida haverá o contraponto, o lado B, o efeito colateral. A maldade independe da minha opinião, da sua ou da qualquer indivíduo. Ela simplesmente está dentro de nós. Então, é tolice ter “vergonha de ser brasileiro”, por exemplo. Deve-se ter vergonha das próprias cagadas e buscar consertá-las, se possível, e melhorar como indivíduo, necessariamente. Motivos para te deixarem envergonhado, revoltado, enojado e/ou triste existem até mesmo no canto que considere o seu perfeito no planeta. A maldade é um defeito nosso, humano, que já vem de fábrica. Direta ou indiretamente, e seja lá o grau de intensidade, somos seres passíveis da crueldade intencional. Isso aparece na forma de corrupção, de terrorismo, da bandidagem, do caixa dois, da negligência de fazer e/ou manter obras como a que destruiu recentemente vidas, famílias, cidades, paisagens em Minas Gerais. A maldade aparece também na forma de preguiça de encontrar uma lixeira para descartar o saquinho da batata frita ou o papel da bala, na da bituca arremessada ao chão sem a menor culpa (depois dos minutos de fumaça contaminando o ar), na indiferença entre as pessoas, na arrogância, no egoísmo, na inveja, na impaciência... Tamanha pluralidade gera pilhas e pilhas de blindagem e quilômetros de barreiras entre as pessoas. Criam-se maneiras ditas ideais de proteção contra tudo e todos, revides agressivos, sangrentos. Soluções derrotadas antes mesmo de serem postas em prática, pois não são, de fato, as ideais. O muro perfeito não é o da distância, o do revide, o da fuga ou o de tijolos com arame farpado e cerca elétrica. O muro perfeito é o do bom senso, o do respeito com amor. Temos responsabilidade pelo que encontramos do lado de fora da porta de casa. Temos responsabilidade, porém, não é essa a única que existe. Por tal razão, precisamos fazer a nossa parte, e fazê-la bem-feita mas sempre levando em conta o coletivo. É como numa orquestra: se um integrante resolver enfiar “um tantinho a mais” de si, arruinará a beleza da execução. Sabe por quê? Porque todos são importantes para tal beleza, por mais simples que pareça ser o papel deste ou daquele no conjunto. O dia em que a noção de respeito não for radical, egocêntrica e vingativa, mas sim plural, generosa e de boa vontade, talvez encontremos um caminho bom mesmo. Esse sonho meu (que espero ser de mais de nós) é desprovido de muros e apuros. É o sonho de um ser humano que repudia a maldade, que não a deixa ganhar espaço no peito, que faz dela, a maldade, uma inspiração para investir no bem, no amor. Música é o amor que só existe se o coração que atinge também tiver amor. Ame mais!
Matéria completa na Revista Bass Player 51/Dezembro de 2015.
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