------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
Diferenciado, o quê?
Henrique Inglez de Souza
 Hoje em dia, tudo e todos viraram “diferenciados”. Seja lá para onde quer que você vá, tem alguém usando essa palavra. Virou o adjetivo do momento. Sempre houve termos e expressões de época, por exemplo, “leque de opções”, “alavancar o projeto”, e assim vai. O da atualidade é “diferenciado” – que me lembre, já ouvi usarem isso flanelinha, vendedor de carro, garçom, propagandas variadas na TV, na internet e no rádio, até mesmo o porteiro do prédio em que moro, certa vez, disse que portão de entrada com sistema de biometria é uma ferramenta “diferenciada” de segurança. Há um tempinho, recebi o material de uma banda (CD + release). Antes de colocar o som para rolar, estava dando uma passada de olho no texto que vendia o peixe deles. E eis que esbarro com a seguinte descrição: “O quarteto trabalha seu rock com composições e arranjos diferenciados”. Imediatamente a implicância me tomou as veias. Mas antes de sentenciá-los, se bons ou ruins, claro, pus-me a conferir tal abordagem extraordinária. Havia dez faixas no disco, e pacientemente fui percorrendo uma a uma. Duas ou três, coloquei para tocar de novo, querendo reparar melhor nisso ou naquilo. Não desagradou. Foi bem gravado, estava tudo afinado, tinha criatividade, um colorido interessante dentro da sonoridade, letras razoáveis, refrãos grudentos. Achei tudo de acordo, porém, cadê o tal diferenciado? Absolutamente nada do que registraram trazia traços de um jeito que realmente inspirasse destaque ante o trivial! O release fazia, então, propaganda enganosa? De certa forma, tecnicamente, sim. Todavia, o caso deles cai muito mais na vala da ingenuidade do que na de qualquer outra coisa. É aquela mania de querer ressaltar qualidades usando palavras bonitas, “do momento”, como se isso acarretasse prestígio ou um status a mais. O porre disso é que o efeito vira do avesso e resulta num treco piegas, vazio, sem víscera nem sangue correndo nas veias. Aí está o ponto: se pararmos para analisar o cenário musical, notaremos que há inúmeras pessoas estilo “diferenciado” por aí, não concorda? Seja rock, jazz, blues, bossa nova/MPB, fusion ou da linha coleção-de-técnicas-sem-gênero- -definido, encontramos instrumentistas cheios de si e esvaziados de musicalidade. Tocam, tocam, tocam, em qualquer velocidade, e não nos tocam (sacou o trocadilho?). Será que são a internet e o incrível mundo dos aplicativos responsáveis por considerável parte disso? Talvez sim. Trata-se de uma tecla que adoro retomar, até porque me sinto com tal missão. O virtual já meio que padroniza as novas gerações, e de um jeito nocivo, pois extrai o lado “real”, tátil e sensível da vida. Daí, o cara se adestra em reproduzir o tipo de abordagem de um determinado baixista, por exemplo, e se autoqualifica “diferenciado”. Passa a ser uma pessoa log-in/log-off para tudo, e é um saco isso! Se ser um ciborgue, daqueles tipo robôs humanoides que vemos em feiras de tecnologia, significa ter um destaque, uma qualidade extraordinária, prefiro continuar no trivial. Porque é do trivial que surgiram Jaco Pastorius, Charles Mingus, Cliff Burton, e um sem- -número de músicos realmente bons e transformadores. Gente de carne e osso, com um talento genuinamente diferenciado. De nada adianta ter equipamento de ponta, ser articulado e dominar as técnicas, se não praticar – diariamente – uma das principais áreas: a sua sensibilidade humana (dor, sabor, amor, calor, ódio...). Sem ela, meus caros, o indivíduo se transforma apenas em um bocejante diferenciado. Fuja disso! Henrique Inglez de Souza – editor@bassplayerbrasil.com.br
Matéria completa na Revista Bass Player 48/Setembro de 2015.
Para adquirir seu exemplar clique aqui.

[VOLTAR]
------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
LEIA TAMBÉM
Mentalidade hermética (27/03/2017)
Músico criticar preconceito com preconceito é inadmissível, ponto contra! Embora não seja mais um ... VEJA MAIS
Diletantismo (07/02/2017)
Numa tarde, há algumas semanas, encontrei o exemplar de um livro meu em um sebo. Aquilo me encheu de alegria. Por mais que ... VEJA MAIS
Comova-se! (23/12/2016)
A falta é um buraco que não se preenche. E não me refiro à falta de algum produto, de um objeto ou um ... VEJA MAIS
Ofício e sacrifício (23/11/2016)
Até onde ou quanto você está disposto a seguir pelo seu ideal? Essa pergunta tem me perseguido bastante ... VEJA MAIS
Teoria da ebulição (19/10/2016)
Enquanto vivemos uma feira aberta de ódio, em que se trocam ofensas, intolerâncias e preconceitos com tesão, ... VEJA MAIS
Patience (14/09/2016)
Recebi a mensagem de um leitor perguntando o que achei da volta de Duff McKagan e Slash ao Guns N’ Roses. A resposta foi a ... VEJA MAIS
 
 



Coloque o seu estudo em dia!






Assinaturas | Contato | RSS | Bass Player U.S |
© Copyright . 1996 . 2011 | BASSPLAYER.COM.BR - MELODY EDITORA | Todos os direitos reservados | Site desenvolvivo por Gustavo Sazes | Abstrata.net