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Finitude
Henrique Inglez de Souza
Notou como muita gente boa da música tem partido nos últimos tempos? A morte do Chris Squire entrou para tal estatística – se é que posso denominar assim. O baixista do Yes vinha batalhando contra uma grave doença, mas não conseguiu superá-la. Enquanto preparava esta edição, me peguei refletindo a esse respeito e sobre alguns comentários de lamento que li em tributo ao ícone inglês. É estranho, porque há quem sinta a perda de um ídolo quase como a de um ente querido. Todavia, se pararmos para analisar, faz certo sentido: um fã passa anos e anos ouvindo, cultivando apreço, indo a shows, comprando discos e DVDs, se informando. Estabelece um “relacionamento” sólido com o músico que admira. Realmente faz parte de seu dia a dia. Quando ele se vai, principalmente de maneira tão violenta (como uma doença rara, assassinato ou acidente), cria-se um vazio doloroso mesmo. Durante o último mês, também vi de perto o sofrimento de um amigo (um anônimo do mundo corporativo). Ele foi perdendo gradualmente o pai em um quarto de hospital. Nada podia ser feito ali. Se você tem um mínimo de sensibilidade, concordará que testemunhar algo assim mexe conosco – e foi o meu caso. Naturalmente o tema do “chegou a hora”, assustador para uns, ficou me perseguindo a cabeça. A nossa impotência diante disso é berrante. A vida é uma maré agitada que, cedo ou tarde, nos alcança com uma de suas ondas da finitude. Por maior que seja o fôlego, estamos à deriva, imersos em alto-mar, completamente à mercê dessas águas. E é de longe que avistamos a desejada terra firme dos sonhos, a qual fantasiamos como sendo a moeda de cobiça que movimenta os nossos anseios. O tempo é curto? Depende da ideia que fazemos e da forma como o aproveitamos. Há os que se afogam, enganados pela própria inércia. Há os que desistem e se atiram diante de qualquer marola, como quem se rende sem ter, ao menos, arriscado uma ou outra braçada. Há os que relaxam o corpo, deixando-o boiar sem direção, na burocracia do tanto-faz. Há os que juram serem capazes de encostar os dois pés no fundo desse mar (baita mentira, claro). Se quisermos, encontraremos de tudo! Admiro os que têm objetivos – mais de um – e que os buscam com convicção. São conscientes da iminência da onda certeira da finitude e usam tal informação para encontrar a determinação de vencer enquanto possível. Para estes, não há efeito revigorante mais eficaz do que o da certeza de que cada iniciativa representa uma grande vitória nessa batalha chamada conquista. Gosto de crer que me enquadro entre esse pessoal. Seja lá quanto, mas o tempo passa rápido para os ocupados e corre para os que bobeiam. Percebe? De qualquer maneira, nesse aspecto, não há privilégio para ninguém. Heróis e anônimos perdem o contraste justamente diante da janela da realidade incorrigível: somos mortais e, quanto a isso, não existe o imbatível. Os ídolos ou os nossos parentes se vão, mas nós continuamos aqui, seguindo até que a nossa própria linha encontre o limite derradeiro. Temos de chorar pelos que achamos que devemos, faz parte do mosaico de sentimentos que nos compõem. Entretanto, jamais devemos perder a noção de que a caminhada que nos embala ainda não terminou. Desistir e esperar “chegar a hora” não me parece algo sábio. Então, estufemos o peito e encaremos braçada a braçada a maré, com força e alegria. Só será tarde demais quando a onda da finitude nos atingir. Até lá, a terra firme dos sonhos continua nos aguardando. Henrique Inglez de Souza – editor@bassplayerbrasil.com.br
Matéria completa na Revista Bass Player 47/Agosto de 2015.
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